DOIS POR UM. PATRÃO QUER QUE UM TRABALHE POR DOIS E SEM RECEBER. ISSO QUE REPRESENTA 80 HORAS SEMANAL

80horas

Quase cem anos depois dos gráficos conseguirem reduzir a jornada de trabalho para 8 horas diárias, na exitosa greve de 1923, que originou o 7 de Fevereiro, a categoria volta a enfrentar a perversidade patronal que quer ampliar a jornada para 80 horas semanal, como se o trabalhador voltasse ao tempo dos escravos. Quem consegue viver com jornada de 12 horas diária? Como ficará a saúde? a família? os estudos? e a vida? A Confederação Nacional da Indústria (CNI) sugeriu tal medida depois que saiu de um reunião com o presidente interino Temer. O presidente da entidade associou o Brasil à França, dizendo que país estrangeiro ampliou para 80 horas a jornada. Não é verdade. A jornada francesa é de 35 horas e pode chegar a 48 horas com extras e não ultrapassando 10 horas diárias. O Sindicato dos Trabalhadores Gráficos de Jundiaí e Região (Sindigráficos) repudia tamanha afronta, que, assim como todo o movimento sindical, defende a redução de 44 para 40 horas semanal. Na verdade, o empresário quer dobrar o tempo laboral do trabalhador. Ele quer poder aplicar 80 horas por semana ao invés de 40 horas. Por exemplo, quer um gráfico trabalhando por dois e sem receber.

2A declaração do presidente da CNI mostra a sanha patronal em sintonia com a maioria dos congressistas/empresários e do governo interino, que querem reformas previdenciária e trabalhistas, sob a desculpa do ajuste fiscal diante da crise econômica no Brasil. “Mas, na verdade, apesar do  pouco tempo do governo interino, com a adoção do Projeto Ponte para o Futuro, após o golpe na presidente Dilma Rousseff, verifica-se o grande ataque de forma sistemática aos direitos dos mais pobres e dos trabalhadores”, diz Leandro Rodrigues, presidente do Sindigráficos. Esse ataque busca é aplicar a antiga política, que não vence nas urnas desde 2003, pois privilegia os ricos e sacrifica pobres, aposentados e os trabalhadores.

“Ao invés de reduzir para 40 horas, pois ampliaria o número de empregos e poderia melhorar a economia e reduzir a atual crise, a CNI e o governo ataquem direitos”, alerta João Adriano, assessor do Sindigráficos. Ele entende que os empresários querem mesmo é transformar os trabalhadores em seus escravos outra vez. Os gráficos brasileiros, que lutam por direitos desde 1858, ainda no período do Brasil Império, nos tristes tempos da escravidão, sabem como resistir e não pode aceitar tamanha afronta. A categoria exige sim é a redução para 40 horas semanais. E esta jornada é recomendada pela ONU/OIT deste o ano de 1919. O país está bastante atrasado nisso. A ONU provou inclusive que reduzir jornada melhora a economia como um todo, pois gera emprego em tempo difícil. Ela também já mostrou que faz mal laborar mais de 50 horas semanal.

pont1A CNI e a Fiesp também defendem a redução do horário da refeição dos trabalhadores. Estas entidades patronais querem que o trabalho seja desenvolvido até mesmo enquanto o funcionário come. “Uma mão na marmita e outra na máquina. Isso é um grande absurdo. Isto é escravidão. Nada mais”, critica Marcelo Sousa, diretor do Sindicato, alertando os trabalhadores para entrarem nesta luta e não pagarem o pato no final de tudo isso.

jura“Primeiro, o golpe em Dilma; e agora, o golpe na classe trabalhadora. Só não vê quem não quer, ou quem não quer deixar que se veja”, diz Jurandir  Franco, diretor do Sindigráficos. O dirigente lembra que 44 horas com as horas-extras já fica difícil o trabalhador ter tempo para ele e sua família, imagina morando no trabalho com uma jornada de 80 horas semanal e 12 horas diárias? Ele lembra também que com um carga horária dessa ninguém conseguirá estudar, nem se aposentar, pois morrerá antes de tanto trabalhar.

Valeria Simionatto, dirigente do Sindigráficos e coordenadora do Comitê Feminino da entidade, alerta para as trabalhadoras que os problemas de saúde só farão crescer com uma jornada desumana dessa. “Hoje muitas já adoecem frente à dura jornada, que precisa reduzir para 40 horas por semana. O índice de acidentes de trabalho também crescerá diante do grande esgotamento mental e físico das mulheres e homens no serviço”, questiona a sindicalista, que lembra que os filhos ficarão órfãos de suas mães vivas, cujo o tempo será voltado só para trabalhar e sobreviver.

banco2“O mundo está mais tecnológico e com alta produtividade. Nada justifica elevar mais a carga da mão de obra. As máquinas gráficas, por exemplo,  já provocam o ritmo de trabalho mais intenso. O trabalhador está no limite de sua produção. A jornada atual já é  altíssima diante dessa produtividade elevadíssima”, diz Luis Carlos Laurindo, advogado do Sindicato. Ele avalia que, como é inconcebível tirar ainda mais produção da pessoa, a proposta da ampliação da jornada visa, na verdade, não pagar pela hora-extra diária, e garantir um exército de não de obra reserva – já que muitos ficarão desempregados, porque, com a jornada maior, a demanda por empregado é menor, já que um funcionário ficará responsável por mais serviços, além do limite. “E quando este adoecer, troca pelo saudável que está à espera do emprego”, critica o advogado.