Quem é o lobo e quem é o cordeiro?

LOBOA abertura do mercado nacional para as indústrias estrangeiras, da forma que foi feita e estimulada pelo governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, promoveu um novo tempo no País, e vem causando nefastos efeitos à classe trabalhadora até os dias atuais. Isso porque a concorrência dentro do setor produtivo associada à dita autorregulação do mercado não trouxeram dias melhores à população, como foi prometido. E tais efeitos negativos são agravados diante da atual crise de sentido social sobre o agir em defesa de direitos trabalhistas e dos empregos.

A sociedade brasileira, especialmente o trabalhador, diante das novas exigências do mercado, tem assimilado para si a premissa da obrigação automática de ter que aceitar que, a manutenção da atividade industrial com o respectivo emprego, é de sua exclusiva e inata responsabilidade. O pior é que ao entender assim deturpa-se o sentido do sindicalismo, da luta de classe, porque o classificam baseados na pretensa autoproteção do emprego a todo custo e sem críticas diante dos critérios do mercado. Assim, atribui-se a alcunha de “bom” trabalhador e sindicato àqueles que fazem concessões de direitos para atender exigências do mercado.

Porém, quem entra nesta lógica, seja o trabalhador na base ou mesmo o sindicalista, está fazendo o contrário. Pois, sem perceber, sob o mote de proteger o emprego, ele faz justamente o inverso. Isso acontece porque ao aceitar trabalhar mais que antes, com menos dinheiro e direitos, o trabalhador permanece na ativa, precarizando o seu trabalho e o de todos. E neste processo de aceitar flexibilizar direitos sob a pseudo justificativa de manter o emprego, o trabalhador estimula o desemprego, já que o empregador preferirá sempre maior produção com menor custo, e, para isso, reduzirá postos de trabalho e a folha de pagamento.

O fato é que tais novas exigências do mercado continuam tendo pesos e medidas diferentes, pois se diz nova, mas mantém a antiga exploração em um único lado. O setor produtivo pode até passar por crises, porém continua forte às custas do sacrifício da classe trabalhadora, mas agora com um diferencial: tem o consentimento dela, aliás, de boa parte dela.

É público e notório que, mesmo depois da concorrência sem fronteira, derivada inicialmente da abertura do mercado nacional, com posteriores efeitos regionais, estaduais e locais, os empresários não reduzem suas margens de lucro e continuam com a mentalidade de antes dessa tal nova exigência do mercado. Portanto, a real mudança ficou só na ótica da classe trabalhadora, que continua sendo muito explorada, mas agora aceita, passivamente e quase que feliz, adaptar direitos sob a premissa de garantir o emprego, mesmo sem qualidade, ou com menor qualidade de vida.

Neste sentido, a fim de manter o emprego diante das novas exigências do mercado, esse atual entendimento do trabalhador e também de parte dos sindicatos de aceitarem a flexibilização de direitos sob a justificativa de ser positivo para todos da cadeia produtiva, não tem atingido tal fim para a classe trabalhadora, porque o que se observa na vida real é a promoção maior de desemprego e a precarização do trabalho existente.

Na prática, fica como diz a Bíblia: lobo em pele de cordeiro. Ou seja, pode até parecer boa (cordeiro) a tese de um trabalhador e sindicalismo moderno. O modernismo aqui se refere à sintonia com as exigências do mercado, com o trabalhador disposto a defender a adequação de leis, achando que isso mantém a atividade industrial e os empregos. Porém, na vida real, na prática, esta tese é pura ilusão, é uma ação de Lobo. Pois, sem perceber, a passividade (quase cumplicidade) do trabalhador e de muitos sindicatos têm ajudado os donos do setor produtivo (meios de produção) a retirar diretos e empregos da classe trabalhadora.

Dentro desse contexto, o exposto pode ser comprovado no setor gráfico pernambucano. Uma empresa multinacional (Plural) acaba de fechar no Estado porque o seu principal cliente (Revista Veja) decidiu produzir noutra empresa (Santa Marta) na Paraíba. Isso ocorreu porque o cliente terá menor custo, já que os gráficos paraibanos recebem menos e trabalham mais do que os funcionários da Plural. Com isso, 222 postos de trabalho se extinguiram em Pernambuco e não foi reaberto no novo local. Além disso, os gráficos paraibanos, que, por meio do sindicato local, aceitam flexibilizar direitos, conviverão com as piores condições de trabalho, salário e de vida, até que percam seus empregos quando o cliente decidir migrar novamente para outra empresa com custo ainda menor. Isso gera o ciclo vicioso de maior lucro para a empresa e, consequentemente, menos empregos e condições de trabalho obreira.

Frente ao exposto, é preciso que o trabalhador, organizado por meio de sua representação política, que é o sindicato da categoria, não seja mais o lobo em pele de cordeiro ao aceitar flexibilizar passivamente direitos sobre a ridícula premissa de querer proteger o emprego, pois isso não está fazendo mesmo.

Desse modo, os trabalhares e o sindicato devem agir em duas frentes de luta: na cabeça e no corpo. a) A cabeça se refere a não mais permitir ser corrompido nos seus próprios ideais com relação ao que representa defender o emprego verdadeiramente. Ceder direitos não é avanço. b) A luta do corpo se refere à organização do trabalhador dentro do sindicato. Ou seja, um trabalhador unido, articulado e mobilizado com os outros da categoria em prol de melhores salários e condições de trabalho e vida.

Por Iraquitan da Silva, presidente do Sindgraf-PE e diretor da Conatig
FONTE: STIG PERNAMBUCO